Artigo Comentários 113 Likes
Novembro 02 / 2016

Cuidando, muito aprendi

Em outubro do ano passado, por ocasião do meu aniversário, recebi alguns presentes, como de costume. Uma das minhas alunas, no entanto, me surpreendeu e me presenteou com um vasinho de flor – uma violeta, para ser mais preciso. Dificilmente, um homem ganha flores (em vida, ao menos) e fiquei até sem jeito para transportá-la para casa, afinal tratava-se de um ser vivo e delicado.
 
Chegando em casa, surgiu uma dúvida: quanto tempo vive uma violeta? Como eu sempre morei em apartamento, pouco sei sobre plantas. Pensei que, se durasse uns quinze dias ou um mês, já estaria bom.
 
Com o passar das semanas, comecei a me interessar e a estudar sobre violetas. Queria aprender tudo. Posição solar, quantidade de água, adubos líquidos e um mundo de informações que nem pensava um dia em buscar. Tudo para cuidar bem do meu presente. 
 
Surpreendentemente, fui me apegando àquela brava plantinha: tão indefesa e tão dependente de mim. Se eu a deixasse muito exposta ao sol, ela morreria. O mesmo aconteceria se eu a molhasse demais. Tudo deveria ser bem pensado, e meus cuidados aumentavam a cada semana. 
 
Pelas minhas pesquisas, uma violeta pode viver quatro anos e florir todos os anos. Melhoraram as expectativas: teria companhia da minha amiga por mais tempo, afinal, ela é o único ser vivo que me faz companhia em um muito grande e solitário apartamento. 
 
Para minha alegria, posso relatar a vocês, agora em setembro, que ela está prestes a fazer um ano comigo. Pela aparência, está muito bem e, não me julguem mal, às vezes até me pego conversando com ela. Pura troca de energia!
 
É claro que nesse período todo de cuidados eu sempre me lembrava de Saint-Exupéry, com seu memorável livro O pequeno príncipe. Uma das frases que me vinha seguido à mente era: “Foi o tempo que dedicaste à tua rosa que a tornou tão importante!”.
 
RELACIONAMENTOS
 
Algo similar ao que acontece comigo e minha violeta ocorre nos relacionamentos interpessoais. As pessoas têm necessidade de ter alguém a quem possam dedicar a sua vida, canalizar seus esforços.
Quantas transformações são percebidas em jovens que se tornam pais! Eles amadurecem rapidamente, pois agora têm uma vida, tão amada e frágil, que depende inteiramente deles. 
 
Muitos dizem que agora encontraram um amor de verdade, para todo o sempre, e que não se sentem mais sós. A família, quando baseada no amor, continua sendo o componente mais importante da sociedade e a grande doadora de sentido na vida.
 
Sempre me pergunto, porém, se são os pais que educam os filhos ou são os filhos que educam os pais. Na verdade, existe uma interação: à medida que transmito ensinamentos, também reafirmo os meus valores e as minhas convicções. Nossa personalidade vai se solidificando sempre mais quando nos tornamos cuidadores e educadores.
 
Uma das grandes dificuldades dos pais nos dias de hoje é saber o que transmitir como prioridade a seus filhos. Muitas vezes, a preocupação da família é que os filhos sejam bem-sucedidos profissional e financeiramente. É claro que isso pode ser bom, desde que não seja colocado em primeiro lugar, em detrimento de valores mais elevados. 
 
Será que os pais se preocupam com a formação do caráter dos filhos? Será que se dedicam ao ensino da importância da fé, da justiça, da honestidade, da solidariedade, da amizade, da gratidão, da sinceridade e tantos outros aspectos essenciais na estruturação de uma personalidade saudável?
 
Na minha vida profissional, já encontrei dezenas de casos de pessoas que aparentemente têm abundância material, no entanto lhes falta paz de espírito. Vivem ansiosas, frustradas, dependentes de remédios, insatisfeitas com a vida que, sem saber, os outros invejam. Priorize o espiritual, o essencial, e o material se tornará supérfluo, até porque, materialmente falando, o ser humano é insaciável.   
 
LÓGICA DIVINA
 
Quando se trata, porém, do nosso relacionamento com Deus, toda a lógica humana fica confusa. Deus, o Criador, sempre existiu e Ele não precisava de nós, no entanto, mesmo assim, nos criou. Por quê? “Quando contemplo o firmamento, obra de vossos dedos, a lua e as estrelas que lá fixastes, me pergunto: que é o homem para que com ele te importes?” (Sl 8,4-5)
 
A resposta mais plausível é que Deus agiu por puro amor! Deus nos amou por primeiro, nos deu a vida, a fé, e nos entregou seu Filho Unigênito para que, com Ele tivéssemos acesso à vida eterna. Se não fosse a ação salvífica de Jesus Cristo, que seria de nós? 
 
Vagaríamos sem esperança pela vida à espera do dia da morte total. Ele, Cordeiro de Deus, é o nosso Salvador e nos abre as portas do paraíso. Como retribuir tantas dádivas? Com gratidão, principalmente.
 
“Alegrai-vos sempre. Orai sem cessar. Em tudo dai graças, porque esta é a vosso respeito a vontade de Deus, em Jesus Cristo” (I Tes 5,16-18).
 
Não basta, no entanto, a preocupação com nossa salvação individual. Ninguém entra no paraíso de mãos fechadas, egoisticamente isolado. Temos que fazer uma caminhada juntos, como irmãos, como Igreja, como povo de Deus. 
 
Uma das melhores maneiras de participar dessa jornada de volta à casa do Pai é pelo nosso exemplo, pelo nosso testemunho de vida. Não precisamos necessariamente de grandes feitos ou belas palavras. Precisamos, sim, exercer nossa humanidade nos acontecimentos do cotidiano de nossa vida.
 
Todos nós somos evangelizadores, mesmo que às vezes nem percebamos isso. Com tantas pessoas sem esperança, sem rumo, sem afeto e sem a graça da fé que recebemos de nossos pais e educadores, precisamos urgentemente colocarmo-nos à disposição dos que de tanto carecem.
 
Se assim o fizermos, um dia, no final de nossa passagem terrena, haveremos de nos dar conta de que todo nosso esforço, toda nossa dedicação e preocupação também nos transformaram em uma pessoa bem melhor e mais plena. Assim como eu, que não sabia nada de plantas, mas ao cuidar da minha frágil violeta muito aprendi e me tornei uma pessoa mais amável, mais sensível e mais plena.
 

Categoria : Artigo